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Evolução Urbana
RECIFE DOS NAVIOS | A 1.ª REFORMA | ARES EUROPEUS | REOCUPAÇÃO DO SOLO

Marcelo Mesel
Rios escorrendo para uma baía calma numa região de clima tropical úmido, cercada de morros, protegida dos humores das ondas oceânicas por longas paredes erigidas calmamente pelo tempo a partir de grãos de areia e carcaças de moluscos, os arrecifes.

Os grãos de terra, barro e húmus, arrastados permanentemente por suas águas enfeitiçadas a procura do mar, terminavam sua longa viagem ao Oeste desta baía, aos pés dos morros, dando origem a um solo de aluvião, argiloso, o massapê; já na sua posição mais oriental, mais perto dos arrecifes, depositavam-se sedimentos de origem marinha, formando uma extensa, estreita e contínua língua de terra. Ligada ao continente ao Norte, avançando em direção ao Sul, paralela aos arrecifes.

De grão em grão a baía se encheu de croas. As croas se tornaram ilhas, enquanto outras croas afloravam. As ilhas, nutridas pelos grãos, que não paravam de chegar à baía, trazidos pela compulsão dos rios e das marés, cresciam e se uniam a outras. As sementes, trazidas do interior pelos rios, ou de outras praias pelo mar, que ora encontrava passagens pelas paredes calcáreas, ora as transpunham com ajuda da força da lua, buscavam cegamente se fixar nas ilhas, croas, ou no fundo da baía, para realizarem seu sonho genético.

Quase todas, por diversos motivos, tinham seus sonhos frustados. Mas algumas, sejam levadas pelas mãos do acaso ou do destino, encontraram condições propícias para desabrochar e foram povoando aquele deserto de água e terra.

As gramíneas e ciperáceas mais afeitas ao solo firme tomaram conta das terras afloradas, enquanto outras se enfiavam nos solos alagados, sedentas de água salobra, dando origem a uma vegetação peculiar, denominada mangue. A fartura de alimentos produzidos alí pela decomposição das suas folhas nas águas, suas águas rasas e quentes, e áreas protegidas das correntes que impedem que animais predadores se aproximem, fazem do mangue um lugar propício para a reprodução de peixes, crustáceos e moluscos, que, misturados à sua fauna própria, tornam os mangues um dos ecossistemas de maior produtividade do planeta.

São caranguejos, siris, chiés, aratus, unhas de velho, ostras, camarões, pitus, agulhas, camurins, tainhas, carapebas, bagres, moréias e outros.

Enquanto isto, o processo evolutivo produzia o Homosapiens, que, encontrando condições favoráveis, dispersava-se por todos continentes, tendo os rios como ponto de apoio, com suas águas doces cheias de peixes, moluscos e crutáceos, tão necessários para matar a sede e a fome.

Os que aí chegaram e habitaram por muitos séculos, viviam da caça, pesca e coleta de frutos, utilizando arcos, flechas, lanças, redes e puçás, e encontravam-se ainda na Idade da Pedra Polida por volta de 1500.

Autodenominavam-se de Caétes, chamavam estes rios de "Rios das Capivaras" (Capibaribe) e "Rios das Arraias" (Beberibe), que eram tão limpos que as índias pariam nas suas águas, protegidas pelas bençãos de Iara, sua divindade protetora. Foi neste cenário que se construiu uma cidade, metade roubada ao mar, metade à imaginação, no dizer do poeta Carlos Pena Filho.



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