Documento:Xangô de Baker Street
Autor : Jô Soares

1995 - Companhia das Letras

O Aquitania estava fundeado à entrada do porto do Recife, sua primeira parada no Brasil. A cidade fora assim chamada por causa dos arrecifes que cercavam toda a sua costa e o ancoradouro. O imenso vapor de quatro chaminés deitara ferro longe dos corais, e os poucos passageiros que desembarcavam tinham de descer, receosos, em pequenas cestas de vime. O mar estava infestado de tubarões, que nadavam em volta do navio à caça dos restos de alimentos que sempre era lançado às ondas pelos cozinheiros. O calor ainda era imenso às cinco horas da tarde. Sherlock Holmes e o doutor Watson se debruçavam sobre a amurada em busca da brisa marinha.
_Parece a Índia _ reclamou Watson. _ Só senti calor igual em Bombaim, quando estive lá em 78, como cirurgião-assistente do quinto regimento de fuzileiros de Northumberland, durante a segunda guerra afegã.
Holmes não lhe deu atenção. Estava absorto, concentrado nos afazeres dos pescadores de tubarões, que rodeavam o Aquitania em suas pequenas embarcações. Tinham um sistema de pesca invulgar, Traziam, nos botes, caldeirões de ferro onde ferviam abóboras enormes. Assim que as abóboras ficavam escaldantes, lançavam-na no mar. Os tubarões, como focas amestradas, recolhiam-nas em suas goelas, engolindo sem mesmo mastigar, e mergulhavam. O calor insuportável das abóboras explodia as entranhas dos animais, que voltavam à superfície, boiando, já mortos. Os pescadores, então, recolhiam os imensos peixes em seus barcos. Para eles, toda essa operação era monótona. Tratava-se de uma técnica primitiva e eficaz, passada, havia gerações, de pai para filho. Trabalhavam em silêncio, em respeito, talvez, às caças dos bichos que matavam. Holmes observava, cativado:
_ Veja, Watson. Engenhoso e primitivo. Os tubarões são tão vorazes que nem têm tempo de notar que a presa que engolem é uma armadilha mortal.
_ Nunca imaginei que esse peixe fosse tão burro _ desdenhou Watson, puxando seu relógio. _ Já passa das cinco. Hora do chá.
_ Meu caro Watson, vejo que você ainda não se acostumou aos trópicos. Em vez de chá, é melhor experimentar essa água-de coco que os marinheiros acabaram de trazer a bordo. Dizem que é refrescante e deliciosa.
_ Fico com o chá. Basta a diarréia que tive em Calcutá quando experimentei suco de manga com leite.
_ Watson, às vezes me espanta a sua falta de capacidade de se adaptar às circunstâncias. Por mim, já me sinto um nativo.(...)

(...) À tarde, no mesmo salão, servia-se o chá. Os dois instalaram-se numa mesinha perto de uma escotilha, de onde, ao fundo, podiam-se avistar os contornos da cidade de Olinda. Sherlock, que não conhecia a colonização de Maurício de Nassau, admirava-se com a arquitetura do Recife.
_ Não fosse o clima, eu julgaria estar ainda na Europa _ disse Holmes, tomando de um trago a sua água-de-coco.
_ Isso se você não olhar os escravos seminus que trabalham no cais_ respondeu Watson, contemplando os negros e bebericando seu chá.