1932
A Náutica Reluzente
"O Amarilli partira da Holanda e fizera uma rápida escala em Londres. Ali carregara furtivamente alguma coisa durante a noite enquanto os marinheiros faziam um cordão entre o convés e estiva, e Roberto não conseguira entender do que se tratava. Depois zarpou seguindo para sudoeste.
Roberto descreve, divertido, a companhia que encontrara a bordo. Parecia que o capitão tivesse escolhido a dedo passageiros excêntricos e delirantes, para servirem de pretexto à partida, sem se preocupar se depois os perderia no decorrer da viagem. Dividiam-se em três grupos: aqueles que tinham compreendido que o navio seguiria para o poente ( como um casal de galegos que desejava alcançar o filho no Brasil e um velho judeu que fizera uma promessa de peregrinar a Jerusalém pelo caminho mais longo); aqueles que ainda não possuíam idéias muito claras a respeito da extensão do Globo (como alguns desajuizados que decidiram fazer fortuna nas Molucas e que chegariam mais facilmente pelo caminho do levante); e, afinal, outros que foram redondamente enganados, como um grupo de heréticos dos vales piemonteses que pretendia unir-se aos puritanos ingleses nas costas setentrionais do Novo Mundo, e não sabiam que o navio iria diretamente para o sul, fazendo a primeira escala em Recife. Quando estes últimos perceberam o logro, o navio chegara justamente àquela colônia - então em mãos holandesas - e aceitaram, em todo caso, permanecer naquele porto protestante, temendo correr maiores riscos entre os portugueses.Em Recife embarcara um cavaleiro de Malta, com um aspecto flibusteiro, que se propusera a reencontrar uma ilha , a cujo respeito lhe falara um veneziano, e que fora batizada Escondida, da qual ele não conhecia a posição e ninguém no Amarilli ouvira sequer o seu nome. Sinal de que o capitão, como se costuma dizer, escolhia a dedo seus passageiros."