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4 séculos de estilos
    Noé Sérgio   (1995)
O Bairro do Recife resume no seu perímetro mais de quatro séculos de formação de uma cidade. A diversidade da malha urbana e dos estilos arquitetônicos que convivem lado a lado são o testemunho dessa trajetória.

O Processo de Revitalização iniciado em 1987 busca reocupar os espaços esvaziados ao longo deste século, principalmente a partir da década de 60 (70% da área edificada segundo dados de 1989).

A diversidade apresenta-se também em relação aos usos. Sobre os sucessivos aterros que transformaram, ao longo dos séculos, uma ponta de istmo com 10 hectares numa ilha com 100 hectares, encontram-se hoje, além do porto, indústrias de porte, o distrito bancário, a prefeitura e repartições públicas. Junte-se a isto toda a gama de comércio e serviços de apoio a estas atividades.

Podemos distinguir neste espaço seis áreas. Na parte Sul, permanecem alguns cortiços, mesclados a sindicatos e escritórios ligados à navegação e o edifício do grupo Votorantim. Em meio a isto tudo, o prédio da antiga Alfândega, anteriormente Convento da Madre de Deus e a própria Igreja da Madre de Deus - monumento nacional tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artistico Nacional (Iphan).

O distrito bancário localiza-se ao longo da Avenida Marquês de Olinda, que junto com a Avenida Rio Branco determinam o perímetro onde ocorreu a primeira grande reforma urbana da cidade do Recife, no início do século (1907-1918). Aí localizava-se o centro original da cidade, que desenvolveu-se em torno da Igreja do Corpo Santo. Todo este conjunto colonial foi então demolido para dar lugar ao que se considerava então uma cidade "moderna": edifícios em estilo eclético, seguindo a moda do urbanismo francês da última metade do século 19.

O trecho seguinte abarca cerca de oito quadras , que mantêm o parcelamento mais próximo, à malha original. A Rua do Bom Jesus aí situada apresenta hoje o mesmo traçado registrado em mapa holandes de 1648, pólo comercial no século 17, então chamada Rua dos Judeus. Foi lá que se localizou a primeira sinagoga das Américas. Na sua extremidade Norte situava-se a Porta da Terra, ladeada por dois baluartes de defesa. Para além das portas da cidade, existiu a localidade de Fora de Portas, surgida ao longo do caminho que ligava Recife a Olinda, sobre o istmo de mesmo nome. Esta área foi destruída na década de 70 pelas autoridades portuárias para uma ampliação que não aconteceu. A população remanescente, ligada às atividades econômicas de apoio ao porto e ao mercado de estivas, deflagrou um processo de favelização que permanece. Encontram-se aí também o Moinho Recife e a Fábrica Pilar de massas e biscoitos. Dentre os monumentos, o Forte do Brum e a Igreja do Pilar tombados pelo Iphan e a antiga Estação Ferroviária do Brum.

Neste século, dois grandes aterros afastaram o Forte do Brum do contato direto com as águas. Do lado do nascente, o porto ampliou a sua área em direção ao Norte. À margem Oeste, na confluência dos Rios Capibaribe e Beberibe, toda a faixa do antigo Cais do Apolo foi acrescida, originalmente para um parque, onde hoje se situam a Prefeitura, o Tribunal Federal e outros órgãos governamentais.

Para efeito de planejamento do processo de revitalização, foram definidos três pólos de ação : Pólo Alfândega, Pólo Bom Jesus e o Pólo Pilar.

Pela sua centralidade e por abrigar a rua mais antiga da cidade, as primeiras ações concentram-se no Pólo Bom Jesus, com a desapropriação dos cinco imóveis mais deteriorados para uma intervenção exemplar em termos de restauro arquitetônico. Foi feito um plano de marketing para alocação de atividades de comércio e serviço, a criação de incentivos fiscais, além do Projeto Cores da Cidade para recuperar as fachadas e tornar visível para a população a riqueza do acervo arquitetônico do bairro.

Paralelamente, estudos vêm sendo realizados no Pólo Pilar, considerado Área de Renovação Urbana, para, através de um plano de massa com alteração nos coeficientes urbanísticos, promover uma valorização e consequente adensamento desta área, incentivando inclusive o uso habitacional, há muito banido do bairro. As ações no Pólo Alfândega permanecem em nível de negociações, uma vez que o edifício da Alfândega, de propriedade da Santa Casa de Misericórdia, se sobressai como equipamento âncora para a deflagração do processo.


Noé Sérgio foi arquiteto do Escritório Técnico do Bairro do Recife (ETBR).



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