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O Valeroso Lucideno
Frei Manoel Calado.

Mandaram os flamengos fazer uma ponte, que atravessa o rio Capibaribe da Cidade Maurícia para o Recife, por escusar o grande incomodo que havia de passar em batéis de uma parte para outra, e até o meio do rio, que se fez de pilares de pedra de cantaria, custou por contrato noventa mil cruzados, e a outra metade se fez de pilares de pau muito grosso, e fixos, e de tal casta que não apodrece a tal madeira na água, mais antes reverdece, a qual madeira se chama Baibiraba.

Esta ponte se fez a custa de todos os moradores, com palavra dada que a passagem seria livre, e para isso fintaram a todo povo a um tanto por cada casal, e todos contribuíram para a fabrica dela; e tanto que os do Conselho Supremo viram a ponte acabada, mandaram lhe fazer portas de uma e de outra parte, e puseram nelas soldados em guarda, e puseram preníatica que todas as pessoas brancas, que passassem por a ponte, pagassem por cada cabeça duas placas à entrada, e outras duas na outra porta quando tornassem, e que os negros pagassem uma placa e que os que passassem a cavalo pagassem quatro placas, e os carros dois realer, e puseram pena que ninguém passassem de uma para outra parte em batéis, e ficaram livres desta lei os soldados holandeses, e todos os oficiais de seus governos políticos; e como o trato de comprar e vender, e os tribunais do governo estavam repartidos no Recife, e na cidade Maurícia, e havia pena que ninguém passasse em batéis, senão pela ponte, sempre a ponte estava cheia de gente, que ia e vinha, que parecia carreiro de formigas, e tiravam os holandeses daqui grande ganância de dinheiro, de maneira que os moradores pagaram os custos da ponte, debaixo de promessa que teriam a passagem livre, e ela acabada logo lhe puseram às costas a lei inviolável de pagarem com a cobiça, e ambição de adquirirem tudo para si cada tres placas valem um vintém.