Andava o Príncipe Conde de Nassau tão ocupado em fabricar a sua cidade, que para afervorar os moradores a fazerem casa, ele mesmo, com muita curiosidade lhe andava deitando medidas, e endireitando as ruas, para ficar a povoação mais vistosa, e lhe trouxe a entrar por meio dela, por um dique, ou levada, a água do rio Capibaribe a entrar na barra, por o qual dique entravam canoas, batéis e barcas para o serviço dos moradores por debaixo das pontes de madeira, com que atravessou em alguma parte este dique a modo de Holanda, de sorte que aquela ilha ficava toda rodeada de água: também ali se fez casa de prazer que lhe custou muitos cruzados, e no meio daquele areal estéril, e infrutuoso plantou um jardim, e em todas as castas de árvores de fruto que se dão no Brasil, e ainda muitos que lhe vinham de diferentes partes, e a força de muitas outras terra frutífera, trazida de fora em barcas rasteiras, e muita soma de esterco, fez o sítio tão bem acondicionado como a melhor terra frutífera; pôs neste jardim dois mil coqueiros, trazendo-os ali de outros lugares, porque os pedia aos moradores, e eles lhos mandavam trazer em carros, e deles fez umas carreiras compridas, e vistosa, a modo de alameda de Armazéns, e por outra parte muitos parreirais, e tabuleiros de hortaliça, e de flores, com algumas casas de jogos, e entretenimentos, aonde iam as damas, e seus afeiçoados a passar as festas no verão, e a ter seus regalos, e fazer suas merendas, e beberetes, como se usam em Holanda, com seus acordes instrumentais; e o gosto do Príncipe era que todos fossem ver suas curiosidades, e ele mesmo por regalo as andava mostrando, e para viver com mais alegria deixou as casas onde morava, e se mudou para seu jardim com a maior parte dos seus criados.
Também ali trazia todas as castas de aves, e animais que pode achar, e como os moradores da terra lhe conheceram a condição e no apetite, cada um lhe trazia a ave, ou animal esquisito que podia achar no sertão, ali trazia os papagaios, as araras, os jacus, os carindés, os jabutis, os mutuns, as galinhas de guiné, os patos, os cisnes, os pavões, os perus, e galinhas grande número, tanto pombas, que não se podia contar, ali tinha tigres, a onça, a suçuarama, o tamanduá, o brígio, o quati, o saguim, o apatéa, as cabras do Cabo Verde, os carneiros de Angola, a cutia, a paca, a anta, o porco javali, grande multidão de coelhos e finalmente não havia coisa curiosa no Brasil que ali não tivesse, porque os moradores lh´as mandavam de boa vontade, por a boa inclinação que viam de os favorecer, e assim também lhe ajudaram a fazer as suas duas casas, assim esta do jardim onde morava, como a da Boa Vista sobre o rio Capibaribe aonde ia muitos dias passeando a se recrear, porque uns lhe mandavam a madeira, outros a telha, e o tijolo, outros a cal, e finalmente todos o ajudaram no que puderam; e ele se mostrava tão agradecido, e favorecia de sorte aos portugueses, que lhe parecia que tinham nele pai, e lhe aliava muito a tristeza, e dor de se verem cativos.