...Eu cheguei em Pernambuco com 15 pra 16 anos e fui logo pra o Brum. Quando cheguei
procurei uma fábrica que trabalhasse com agave. Só tinha a fábrica Yolanda, mas lá os agave já vêm tudo preparado,
então não tinha lugar para mim. Aí comecei quebrando a cabeça em "boite", cafezinho e esses bares, essas
lanchonetes que chamam café concerto. Depois consegui uma ordem pra tirar roupa de lavagem do Porto. Eu cheguei
aqui no dia 3 de fevereiro de 1957 e no mês de agosto eu tirei essa Ordem. Os trabalhos estavam muito fracos. Tirar
roupa pra lavar dava um melhor resultado.
... Acertei meus documentos e comecei a trabalhar no Chantecler. O homem não queria, foi quando eu menti. Tirei
outro registro por minha conta própria e me naturalizei pernambucana. Meu sonho. Como amo o Recife! Assim fiz
minha outra carteira de maior e acertei meus documentos pra poder trabalhar no Chantecler, porque o Juizado era
ali em cima. E fiquei trabalhando lá muito tempo. De lá mesmo eu pegava os cartões da "boite" e levava pra botar nos
navios pra aquela turma ir pra o Chantecler se divertir.
... o administrador do Porto, com a autoridade e a força que ele tem, fechou os portões pra gente. Simplesmente ele
acabou com aquele movimento que tinha antes. Nós ficamos entrando só na faixada do cais, mas era muito
humilhante, por ali esperando, sem poder entrar nos navios pra buscar as roupas, como era antes. Isso foi em 70.
Eu me aperriei logo e me afastei um pouco, no dia 3 de abril de 1970.
Fui trabalhar como cobradora da Rodoviária Brasília. Só oito meses. Era um servico muito enrolado.
... Voltando ao tempo que fui lavadeira, fui lavadeira tantos anos, que perdi as contas. Eu me afastei desse serviço
em 83. Já negociando com uma barraca, e ainda trabalhando como lavadeira. Minha freguesia era boa nessa época,
melhor do que hoje. Com essa barraquinha, é uma fome, Deus me livre! Os barraqueiros estão quase todos morrendo
de fome. Quando tem navio fica melhorzinho, quando não tem ...
... Eu andava por esses cantos e voltava para o Bairro do Recife. Agora, naquele tempo era completamente diferente
de hoje. O porto era muito movimentado. Tinha muitos navios estrangeiros nesse porto. Tinham duas linhas
estrangeiras que desapareceram. Eram duas companhias americanas que davam muita produção a esse porto.
Os homens já contavam com esses navios quando trabalhavam. Tinha o descarregamento de trilho muito grande,
onde os homens ganhavam uma parte de dinheiro maior. Eles brigavam por esses navios quando eles estavam no
porto. O povo brigava pra trabalhar com adubo por causa da produção, do dinheiro que ganhava. Hoje ninguém quer,
trabalha porque são obrigados. Trilho, adubo, a produção dessa companhia de Tucuruí, dessa Camargo Correia
rendiam muito dinheiro.
As boites tinham um grande movimento, tinham disciplina. Não existia esse mundo de droga que existe hoje por aí.
Antes, quando a polícia descobria, aquele, ninguém via mais. Era muito cacete; o cara ia preso e ninguém via mais
esse homem. Não se ouvia nem falar, desaparecia do mapa . . .
... Por aqui sempre teve pensão de mulheres e comércio. Hoje em dia tem ainda os sindicatos, os bares, restaurantes,
pensões, boites . . . essas que já existiam. A Rua da Moeda sempre teve comércio de várias coisas, agora, em cima,
sempre era boite e pensões de mulheres. Só que era tudo limpo. Não existia tanta gente dormindo no chão. Isso
sempre existiu, mas não desse jeito que está hoje. Todo mundo morrendo de medo. A gente andava abertamente,
não existia assaltante. Era um, perdido. Nem se ouvia falar. Sabe qual era a desordem daqui desse Bairro?
Era quando tinha navio de guerra no porto. Às vezes tinha briga de mulheres, às vezes tinha briga de marinheiros.
Quando os marinheiros brigavam aqui, o povo ficava com medo. Muitas boites não abriam, muitos bares também.
Os marinheiros usavam uma tal de soqueira, só se via gente de queixo quebrado . . . Era muita miséria, não tinha
disciplina. Depois de 64 pra cá acabou-se isso, hoje é muito disciplinado."