...Agora, quanto ao Brum, era um lugar fabuloso, isto aqui deu até miss Pernambuco, uma
moça que era dali descendente de espanhóis foi miss pelo Sport e como miss pelo Sport foi miss Pernambuco. Aqui
havia festas bonitas pelo São João, havia bloco de carnaval, o "Cara Suja" do moinho e outra troça aqui do São Jorge;
havia um campo de futebol ali do São Jorge Futebol Clube, onde os rapazes jogavam. Levei diversos jogadores daqui
para o Santa Cruz como técnico do Santa Cruz Juvenil. Havia festas importantes aqui, havia escolas para crianças.
Tinha aqui mais de 300 crianças.
...Hoje a situação do Brum é essa, a Portobrás recebeu isso de graça. Não pagou, fez desapropriação não pagou, a
maioria do pessoal não recebeu, o meu caso, né? e não está precisando disso. Já andou até vendendo aqui terrenos
e coisas, acabaram com o bairro do Brum, o bairro onde começou o Recife, não compreendo uma coisa dessa não.
... Aqui no bairro morava muitas famílias, moças estudavam. Até missa aqui neste bairro, senhoras casadas, mas
a boemia começava ali na praça Artur Oscar conhecida como Praça do Liso. Ali tinha a rua do Bom Jesus, tinha a rua
da Senzala, que hoje não existe mais, a rua da Guia e a rua do Apolo. Estas ruas eram as ruas da boemia. Depois
foram se espalhando mais lá pra Vigário Tenório, Avenida Rio Branco, rua da Madre de Deus. Mas o centro mesmo,
o centro da boemia era a rua do Bom Jesus com aqueles Café Central, Café Chileno. O Café Chileno abria até 01:00
hora da manhã e os marítimos ficavam ali, as meninas ficavam todas ali, vinham de toda parte do Brasil e do interior,
e tinha aquele sobrado hoje do Bom Jesus, da Avenida Rio Branco, tudo aquilo era pensão. Então todos faziam parte
dessa vida marítima, forçosamente tinha que vir ter ali. Eu vinha as noites pra ali, pro Bom Jesus, vinha muitos
amigos meus pra ali. Na época trabalhava a semana toda. Nos sábados e domingos vinha pra boemia. Havia também
duas ou três danças ali.
... A boemia à noite era para aquele pessoal que chegava, os marítimos. Havia um movimento muito grande no Porto
e tinha época que não tinha lugar pra encostar os navios. Então aqueles navios ficava no largo e a marujada toda
descia para fazer as suas farras, beber e fazerem os seus amores. Agora interessante que até isso era um amor,
quer dizer, mais ou menos um amor de necessidade necessária, mas que não havia devassidão. As mulheres eram
mulheres de vergonha que apesar de serem mulheres de vida fácil, mas eram mulheres que não usavam certos
expedientes que hoje se usam. E infeliz do homem naquela época que fosse chamar uma mulher daquelas pra fazer
certas coisas que não era de direito uma mulher fazer. Levava até navalhada! Não foi uma nem duas pessoas que
nesse tempo que vivia na rua do Bom Jesus que foram cortadas por mulheres por terem tentado fazer alguma coisa
de anormal com as mulheres, que hoje se faz abertamente.
... Havia determinadas pensões que um trabalhador como eu do navio às vezes não me enxeria de entrar porque
sabia que o cachê era rnuito caro, tinha que beber, ah! isso tinha, tinha que beber, ia ou não ia. Agora existia as
pensões e também existia o famoso recurso. São os motéis. E se uma mulher vinha fazer a zona, como chama-se,
e não tinha pensão, vinha dos subúrbios, então a pessoa se engraçava levava lá para os famosos meia-noite.
Lá fazia fila, ainda hoje existe o meia-noite, ali na frente da Cooperativa dos Usineiros, depois da Igreja da Madre
de Deus. Esse era um dos recursos famosos aqui do Recife, porque era de qualquer um. Chegou, pagou, subia,
acabou-se. Lá fazia fila esperando. Se não me engano ainda tinha 06 ou 07 quartos e só viviam ocupados,
principalmen-te nas noites de sábado, que era a noite que vinha as mulheres de fora, do subúrbio, empregadas de
Boa Viagem, empregadas de casa de família, da Boa Vista, do Derby. Iam brincar e também vinham os trabalhadores
dos subúrbios, sabiam onde encontrar os trabalhadores solteiro e tudo, encontrar mais facilidade para o amor.
... Agora, depois da esquina da rua do Apolo, rua da Senzala ali não morava família nenhuma não. As famílias até
passavam durante o dia pela Bom Jesus, mas nunca passavam pela rua da Senzala nem rua da Guia.
... Ocupado por muitas famílias, então o porto pagava e mandava até às vezes a guarda deles despejar o povo.
Não tava direito nada, porque era o governo, o tempo era de repressão, era uma ditadura grande que hoje fala-se em
democracia, mas eu não tô vendo a democracia ainda não. Avalie que eu fui desapropriado aqui, comecei do nada,
cumprindo minhas obrigações, dando trabalho a 18, a 17 pessoas, as famílias também que viviam daqui praticamente
estão paradas, porque a desapropriação parou também com meus negócios. E até hoje não me pagaram. Esse
negócio que comprei na década de 60.