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Depoimentos de antigos moradores do Bairro



JOÃO NASCIMENTO DE OLIVEIRA,
nasceu no Bairro do Recife, na Rua São Jorge, em 23 de junho de 1923.
Reside na Primeira Travessa da Rua do Anil, 149, Beberibe.
Entrevistado em 1988


Cícera

...A minha infância, na rua de São Jorge, era correr de calça curta. Aqui não tinha luz. Ainda era lampião. Tinha poucos bondes. Tinha essa Pilar. O Moinho era dentro do mocambo. Existia um bonde por nome Pilar. Vivi no bairro até os nove anos. Isso aqui hoje está tudo modificado. Aqui onde está o Banco do Brasil era um mocambozinho. Depois virou aquele gigante. Encostado nele ficava o primeiro instituto que surgiu no Brasil, o Instituto dos Marítimos.

...Essa Praça teve três nomes: A Praça dos Lisos, onde os trabalhadores vinham sem ter condições de nada e ficavam o dia todinho com fome, sem ter coisa alguma; depois passou para Praça Artur Oscar e atualmente é Praça do Arsenal da Marinha.

...Onde existe a Capitania dos Portos, era a Escola de Aprendiz de Marinheiros. (No tempo, pegavam as crianças que não tinham condições e empurravam para a Marinha. Eu não cheguei a ser pegado porque os meus pais não me deram. Eles tinham muito cuidado comigo). Mais na frente existia a Estação de Ferro, a Estação do Brum. Era dos ingleses.

...Ainda tem a Cruz do Patrão, agora uma decoração do Estado e histórica. É do tempo da escravatura. (A escravidão para mim não acabou não. O chicote levantou um pouquinho, mas continua).

...Aqui nesse largo do Moinho várias vezes a cavalaria comia no centro, todos apanhando, aquele bolo danado. Eu sempre andava com o Jornal do Commercio e o Diário de Pernambuco. Então diziam: "Não, esse não, esse é do governo. Não está vendo que o homem está lendo o Jornal do Commercio?" (Naquele tempo, pegavam aquele cara que estava com a Folha do Povo, que era o jornal perigoso. Mas deixa que eu lia a Folha do Povo, mas não na frente dos outros companheiros).

...A época em que os portuários tinham mais direito e em que eram respeitados foi a época de 1963 para trás. Ele tinha liberdade de exigir uma coisa de que tinha direito. O trabalhador precisa é de dinheiro para se alimentar a ele e à sua família. Receber dinheiro de acordo com o suor que derrama. O homem tem que aprender um bocado de coisa na vida que é para poder viver. "


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