...A minha infância, na rua de São Jorge, era correr de calça curta. Aqui não tinha luz.
Ainda era lampião. Tinha poucos bondes. Tinha essa Pilar. O Moinho era dentro do mocambo. Existia um bonde
por nome Pilar. Vivi no bairro até os nove anos. Isso aqui hoje está tudo modificado. Aqui onde está o Banco do Brasil
era um mocambozinho. Depois virou aquele gigante. Encostado nele ficava o primeiro instituto que surgiu no Brasil,
o Instituto dos Marítimos.
...Essa Praça teve três nomes: A Praça dos Lisos, onde os trabalhadores vinham sem ter condições de nada e ficavam
o dia todinho com fome, sem ter coisa alguma; depois passou para Praça Artur Oscar e atualmente é Praça do Arsenal
da Marinha.
...Onde existe a Capitania dos Portos, era a Escola de Aprendiz de Marinheiros. (No tempo, pegavam as crianças que
não tinham condições e empurravam para a Marinha. Eu não cheguei a ser pegado porque os meus pais não me
deram. Eles tinham muito cuidado comigo). Mais na frente existia a Estação de Ferro, a Estação do Brum. Era dos
ingleses.
...Ainda tem a Cruz do Patrão, agora uma decoração do Estado e histórica. É do tempo da escravatura. (A escravidão
para mim não acabou não. O chicote levantou um pouquinho, mas continua).
...Aqui nesse largo do Moinho várias vezes a cavalaria comia no centro, todos apanhando, aquele bolo danado.
Eu sempre andava com o Jornal do Commercio e o Diário de Pernambuco. Então diziam: "Não, esse não, esse é do
governo. Não está vendo que o homem está lendo o Jornal do Commercio?" (Naquele tempo, pegavam aquele cara
que estava com a Folha do Povo, que era o jornal perigoso. Mas deixa que eu lia a Folha do Povo, mas não na frente
dos outros companheiros).
...A época em que os portuários tinham mais direito e em que eram respeitados foi a época de 1963 para trás. Ele
tinha liberdade de exigir uma coisa de que tinha direito. O trabalhador precisa é de dinheiro para se alimentar a ele
e à sua família. Receber dinheiro de acordo com o suor que derrama. O homem tem que aprender um bocado de coisa
na vida que é para poder viver. "