...O comissário não queria que ninguém descesse pra calçada. Uma vez a gente foi pro circo, quando chegamos eles
prenderam a gente porque a gente saiu fora de hora. Nem pro circo a gente podia ir. Pra sair só se fosse pra o
comércio, apanhando direto um carro. Mas pra ficar perambulando pela rua antes das 10 horas, de jeito nenhum.
Se saísse dessa ordem tinha aquela carrocinha, aquela unidade móvel, os carros que vinham e levavam quem
tivesse por ali. E as mulheres do Bairro eram reconhecidas porque eram tudo fichada na Secretaria. As mulheres
mesmo, verdadeiras, de antigamente, tudo tem ficha. Tem o fichário das ladronas e tem o fichário das outras.
Um assim e outro assim. Nós somos um outro fichário. Qualquer coisa que fossem falar da gente na Secretaria,
sobre uma infração daquelas ordens, a gente era punida porque a gente era fichada - a gente não era clandestina. . .
Até o tempo com esse comissário aqui, quem ia reclamar nada? Quem podia? Ninguém pode, ninguém quer nada.
Essa parte do baixo meretrício é uma parte abandonada. Ninguém gosta não. Tem um pessoal de bem, mas nem
todo mundo gosta. Nós somos queridas por Deus porque Deus é um só e ama as filhas dele. As vezes a pessoa
tem um destino e do destino ninguém foge. Deus tá vendo que às vezes não é tanto... Ele sabe de tudo. Às vezes
acontecem coisas que nem a própria pessoa sabe porque nem como foi que de repente se deu.
...Dali passei para o Convento, onde fiquei até outro dia. Na minha vida aqui no Bairro, dei lucro a sete donas de
pensão.
...As noites aqui eram muito animadas. Era tabuleiro de fruta de ponta à ponta muita barraca de ponta à ponta; tudo
que se queria comprar, tinha por aqui. Era maçã, era uva, era toda qualidade de fruta . . . Era muito animado esse
Bairro aqui. E agora triste desse Jeito. Naquele tempo essas casas era tudo cheia de gente, não tinha uma só
desocupada. Era mulher que não era brincadeira! As varandas eram cheias de ponta à ponta de mulher e no porto,
de ponta à ponta de navio. Quando tinha navio com carvão de pedra o pessoal trabalhava a noite todinha e no que
largava o serviço tava tudo pretinho, tudo sujo e assim mesmo dentro dos bares. Mas o dinheiro correndo.
...Hoje não. Dá até tristeza e medo se andar de noite na rua. As vezes de noite, venho e me sento na esquina porque
tem aí perto a delegacia. Aí só tem esses trombadinhas, esses meninos soltos por aí. As vezes um olha pra mim e
diz: minha tia que é gue está fazendo aqui? Tô tomando um ventinho . . . É minha tia, fique aí . . . Com a gente eles
não bolem nada.
...Quando cheguei aqui em 52 teve uma greve. Foi horrorosa a greve. Parou os navios todinhos, eles ficaram na linha
de fora. Navios em quantidade tudo parado. Pararam os portuários, arrumador e estivador parado, tudo parado aí
nessa Praça Artur Oscar. A "parede" era ali. A pedra de botar o nome de quem ia trabalhar quando o navio saia, era ali.
Um quadro negro grande e uma casinha de tábua que guardava. Eles tudo "assentado" ali e eu muito nova cheia de
vida por ali também.
...Era mesmo que serem minhas irmãs. Morava tudo na mesma casa, saía, queria comer, queria beber, não tinha
dinheiro, quem tinha pagava pra quem não tinha . . . Minha vida foi essa, gastar o que pegava. Não juntava nada
na vida. Chega parece que era como uma coisa dentro de mim que queria destruir todo o dinheiro que eu pegava.
Não ficava um na minha mão. Não nasci prá ter dinheiro, nasci pra morrer na lama mesmo. Pra mim dinheiro é a
tristeza do mundo, a causa das guerras, pra mim o dinheiro é a ruindade do mundo. "