O depósito dos bondes de burros ficava situado na rua do Brum e ainda hoje seu prédio, abandonado, vive desafiando a ação do tempo e implorando a proteção dos órgãos competentes.
Na realidade a Ferro Carril, empresa que explorava esse tipo de transporte no Recife, dispunha de dois prédios, um defronte do outro. Num se guardavam os bondes; no outro, os burros que quando mortos, eram atirados a um braço de maré, que entrava na estrebaria. O rio só se afastou dali com o aterro do Cais do Apolo, que proporcionou várias construções importantes às margens do rio: a sede da Prefeitura, o Ministério do Trabalho, a Caixa Econômica e a Polícia Federal.
O recifense, espirituoso como sempre, chamava esse depósito de Academia do Brum, dizendo diplomado por ela, todo aquele que não Ihe parecia inteligente.
O bonde de burros foi inaugurado em 1871 e só foi desativado em 1914, com o surgimento dos bondes elétricos, da empresa Pernambuco Tramways and Power Company Limited. Suas linhas atendiam a Madalena, Torre, Fernandes Vieira e Rua da Aurora. O curioso nesse meio de transporte era a necessidade de apoio às sotas, trocando-as por outras que ficavam nas pontes, para vencer as rampas. Em locais previamente estabelecidos havia a troca dos burros, por outros descansados. Um dos pontos de troca era a Madalena, na altura da ponte.
O bonde de burros foi fruto de uma época em que todos se conheciam e ninguém tinha pressa. Vagaroso, muitas vezes quando o bonde apontava no começo da rua, dava tempo para o passageiro, em casa, sorver o último gole de café. Os usuários eram sempre os mesmos e quando surgia uma cara nova, essa era logo notada e dentro de pouco tempo estava inserida no grupo.
Embora toscos, os bondes eram bonitos e bem cuidados com 8 bancos para 32 lugares e pintados de vermelho. O destino de cada um era identificado com o nome e a cor correspondente para atender também aos analfabetos, naquela época em grande número. Assim, "Fernandes Vieira- Hospício" e "Fernandes Vieira-Conceição", a cor era amarela; "Afogados-Herval" e Afogados-Caxias", verde; "Torre" e "Madalena", rubra; "Derby", branca com frisos alaranjados e "Santo Amaro-Hospíscio" "Santo Amaro-Aurora", azul.
Bucólico e pontual, o bondinho de burro saía pelas ruas do Recife, tilintando as compainhas penduradas nos pescoço dos burros, convidando os transeuntes para conhecer a cidade. Por tudo isso, o uso dos bondes de burros tornou-se tão intenso que a Ferro-Carril passou a vender carnês com bilhetes avermelhados, que logo passaram a ser aceitos por todos os comerciantes da cidade, como o são hoje os tíquetes-restaurante. Esse bilhetes que eram assinados pelo gerente da Carril, Sr. Sampaio, e passaram a ser chamados de SanGaios, em face de um erro de impressão havido no nome do tal gerente, quando se trocou o "p" pelo "G". Mais uma vez, dando vazão a espirituosidade do povo recifense, conta-se que, quando esses bondes mudaram sua iluminação a querosene ou acetileno, para luz elétrica, através de acumuladores, o povo apelidou de "eletro-burro".