CALABAR
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"PORQUE CALABAR?"
Motivo da Traição
HISTÓRIA
Essa situação de virtual equilíbrio no Nordeste continuou até 22 de abril de 1632, quando um soldado de nome Calabar, homem muito forte e audaz, deixou o campo português e passou para o lado dos holandeses. Foi apenas por um breve período, pouco mais de três anos, mas teve conseqüências para toda a época flamenga.

Calabar não foi o único a passar para o outro lado, mas sem dúvida foi o mais importante entre eles. Era um homem inteligente e grande conhecedor da região, que já tinha se distinguido e ficado ferido na defesa do Arraial sob a liderança do nobre general Matias de Albuquerque.(20)

Inicialmente, os holandeses não confiaram muito nele. (21) No entanto, dez dias depois Calabar provou pela primeira vez o que podia fazer, levando as tropas do coronel Van Waerdenburch a saquear Igaraçu, a segunda cidade de Pernambuco, para onde uma parte das riquezas de Olinda tinha sido transportadas. Durante os meses seguintes, muitas campanhas foram feitas pelas colunas volantes batavas sob a orientação de Calabar, que tornou-se amigo do coronel alemão Sigismund von Schoppe.

Por outro lado, o general Matias tentou "por todos os meios possíveis (reduzir Calabar), assegurando-lhe não só o perdão, mas ainda mercês, se voltasse ao serviço de el-rei; e esta diligência repetiu por muitas vezes, no que se gastou algum tempo; mas vendo que nada bastava para convencê-lo, tratou de outros meios."(22)

Em 1633, com a ajuda de Calabar, foi conquistado o litoral norte, desde Itamaracá até a fortaleza dos Reis Magos, e com isso o Rio Grande do Norte, o que levou a contatos amigos com os tapuias, indígenas antropófagos daquela região. Na parte sul, foi tomado o valioso ancoradouro do Cabo Santo Agostinho, o que privou os portugueses do porto mais próximo do Arraial, dificultando o recebimento de reforços de Lisboa e o envio de açúcar para Portugal.

Nessa altura, o coronel Sigismund, como o mais velho dos oficiais, assumiu o comando das tropas terrestres. No mar, o almirante Jan Cornelis Lichthart, que falava português, tornou-se amigo de Calabar, que lhe ensinava as entradas dos rios. Do outro lado, os portugueses prosseguiam com suas tentativas de destruir Calabar. Assim, em março de 1634, o general Matias prometeu a Antônio Fernandes, um primo irmão com quem Calabar fora criado, "que lhe faria mercê que o contentasse se pudesse matá-lo em algum ataque." Antônio aceitou a comissão mas foi morto na tentativa.(23)

Enquanto isso, Calabar se adaptava mais e mais à sociedade dos invasores e tornou-se um indivíduo estimado e respeitado, inclusive na "igreja católica reformada." (24) Prova disto é que, quando nasceu um filhinho do casal, foi batizado na Igreja Reformada do Recife. O livro de batismo dessa igreja registra que no dia 20 de setembro de 1634, Calabar esteve ao lado da pia batismal com o seu filho nos braços. O menino foi, então, batizado "Domingo Fernandus, pais Domingo Fernandus Calabara e Barbara Cardoza." (25) Como testemunhas, ali estavam o alto conselheiro Servatius Carpentier, o coronel Sigismund von Schoppe, o coronel polonês Chrestofle Arciszewski, o almirante Jan Cornelisz Lichthart e uma senhora da alta sociedade. (26) O pastor oficiante foi provavelmente o Rev. Daniel Schagen.(27)

No final de 1634, a Paraíba também havia se rendido aos invasores. Alguns sacerdotes (exceto os jesuítas) inclusive tiveram a permissão de assistir aos ofícios religiosos. Houve até um padre, Manuel de Morais, S.J., que passou para o lado invasor. Dessa forma, os holandeses ocuparam a faixa litorânea desde o Cabo Santo Agostinho até o Rio Grande do Norte. A Espanha não podia fazer muito devido aos grandes problemas que enfrentava na Alemanha (com o avanço do exército sueco para ajudar a Reforma contra as tropas do imperador), a perda de uma frota carregada de prata do México (devido a um furacão), problemas no Ceilão, vários anos de seca em Portugal, etc.
Novamente orientados por Calabar, os holandeses continuaram a expansão para o sul e, em março de 1635, atacaram Porto Calvo, a terra natal do próprio Calabar.
Os defensores, liderados por Bagnuolo, fugiram para o sul, e com a ajuda de frei Manuel Calado do Salvador (28) os moradores da região submeteram-se aos holandeses.


Dessa forma, o Arraial ficou isolado e, depois de três meses, em junho, Arciszewski conquistou aquela fortificação lusa, os religiosos recebendo permissão para levarem as suas imagens. Matias de Albuquerque havia fugido para o sul com aproximadamente 7000 moradores que preferiram acompanhá-lo a ficar sob o domínio flamengo. A única estrada da região pantanosa de Alagoas que podia ser usada por carros de boi passava por Porto Calvo, e nessa altura estava em poder do major Picard e de Calabar, acompanhados de uns 500 homens. Matias viu-se forçado a atacar a praça, que teve de pedir condições de entrega.

Picard tentou salvar a vida de Calabar e finalmente foi combinado que ele ficaria "à mercê d’el-rei."(29)

Porém, como disse o historiador De Laet, a proteção concedida foi "à espanhola" e um tribunal militar o condenou a ser enforcado e esquartejado como traidor. (30) O frei Manuel o assistiu nas últimas horas (31) e ao anoitecer do dia 22 de julho de 1635 a sentença foi executada. Foi também enforcado um judeu, Manuel de Crasto, "homem de nação", que estava ali a serviço dos holandeses.(32)

Poucas horas depois, os portugueses continuavam a sua retirada em direção à Bahia, levando consigo cerca de 300 prisioneiros holandeses. Nenhum dos moradores cuidou de enterrar o soldado executado. Dois dias depois, chegaram a Porto Calvo as forças combinadas dos coronéis Sigismund e Arciszweski, que ficaram enfurecidos ao achar os restos mortais do seu amigo e compadre Calabar.
Foram colocados num caixão e sepultados com honras militares. Querendo vingar-se da população lusa, foram dissuadidos por Calado, "o frei dos óculos", especialmente pelo fato de que os holandeses precisavam dos "moradores da terra" para a plantação da cana-de-açúcar e a criação do gado.


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