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 "Era o Recife do Arsenal, da Alfândega,
 dos guindastes, das senzalas, da Rua do
 Bom Jesus, da Cruz do Patrão,
 dos sobrados de azulejos, de três, quatro
 e até mais andares"


 (Pinto, E. - 1940- pp10-11)
O Bairro do Recife sempre teve o seu destino
estreitamente ligado ao porto. Quando havia
queda no escoamento de mercadorias, chegavam
a reboque o desemprego e a decadência.
Somente no início do século 19 que o porto e,
consequentemente, o Bairro do Recife receberam
a atenção merecida. A vinda da família real para
o país e a abertura dos portos brasileiros ao
comércio estrangeiro repercutiram profundamente
na cidade. A entrada de capital britânico revigorou a economia local, forçando a modernização do porto do Recife, por onde escoava grande parte da cana-de-açúcar e do algodão.

A Revolução Industrial trouxe o emprego do ferro nos navios, o que aumentou o comprimento e a sua capacidade de carga, exigindo mais dos serviços portuários e dos ancoradouros. Os primeiros projetos para reforma do porto do Recife começaram a ser elaborados em 1815. Mas os trabalhos só iniciaram no ano de 1909. Nesta época, o bairro estava em plena efervescência econômica. Ele concentrava o comércio exportador e importador, as finanças nacionais e estrangeiras, os serviços públicos básicos (como transportes ferroviário e marítimo), além das comunicações. O bairro começou a inchar, abrigando cerca de 13 mil pessoas distribuídas em 1.180 casas e sobrados.

A conexão imediata entre o Bairro do Recife e o restante da cidade era feita pelo bairro de Santo Antônio, que abrigava o Palácio do Governo, o Tesouro do Estado, o Quartel da Cavalaria, o Fórum, o Teatro Santa Isabel, a Biblioteca Estadual, o Gabinete Português de Leitura e as redações dos jornais da época. Durante o século 19, o bairro reunia a parte mais pobre da cidade (pescadores, artesãos, caixeiros, trabalhadores portuários), enquanto a elite se concentrava em áreas como Boa Vista e Benfica. Com a reforma, que teve início nas primeiras décadas deste século, a situação mudou.

O Recife sofreu a sua primeira reforma urbana. Todo núcleo original foi demolido para dar lugar a um traçado influenciado pelo urbanismo francês do século 19. Foram alargadas ruas, como a Marquês de Olinda, e criadas outras, a exemplo da Avenida Rio Branco. Nesta época também foram elaborados planos de saneamento para o bairro e iniciadas algumas obras. A reforma, no entanto, não levou em consideração a conservação do patrimônio histórico. Prédios foram destruídos, como a capela do Corpo Santo (construída pelos portugueses no século 16) e os arcos da Conceição e Santo Antônio, que davam passagem para a Ponte Maurício de Nassau, a primeira do país. Dos 1.180 prédios do bairro, 205 foram demolidos. Houve desapropriações e os antigos moradores formaram uma população marginalizada, ocupando os prédios em ruínas ou erguendo barracos.



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